A segunda série de relatórios do EM sobre o impacto da inflação nos alimentos mostra que Belo Horizonte teve que mudar hábitos de consumo.

A inflação descontrolada no Brasil durante a pandemia do coronavírus alterou os hábitos alimentares e de consumo das famílias, independentemente da renda. Em vez do consumo abundante de carne bovina e suína, ovos e frango tornaram-se as opções mais lucrativas para os brasileiros durante as refeições.

A segunda matéria da série de reportagens do Estado de Minas sobre o aumento de preços dos alimentos, e o impacto na vida do belo-horizontinho, aponta que, com relação às hortaliças, certas opções ficam em segundo plano em meio à alta desenfreada dos preços nos sacolões na temporada de inverno, em que as chuvas ficam escassas.

Por isso, legumes, frutas e verduras que estão na safra se tornam as melhores opções para o consumidor no dia a dia. Num período em que inflação acumulada que chega a 9,08% nos últimos 12 meses, segundo dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), do IBGE, especialistas indicam que é preciso ter muita paciência, pesquisar preços mais acessíveis e optar por consumir produtos em abundância no momento. 

 “A orientação é procurar os estabelecimentos que praticam os preços mais acessíveis, além de tentar substituir. Muitas vezes, não é possível. Os produtos chegam a preços exorbitantes. Precisamos deles, mas nem sempre é possível pagar um valor tão alto”, afirma Ricardo Martins, coordenador de informações de mercado do Ceasa.

De acordo com ele, as mudanças climáticas interferem no preço, mas os consumidores podem substituir por frutas e verduras em promoção. “Os hortigranjeiros sofrem muito em duas épocas do ano. No início do ano, as chuvas afetam a produção. E nos períodos de inverno rigoroso, alguns produtos ficam mais afetados. Eles ficam mais caros por isso, principalmente as hortaliças e frutas, como abobrinha, berinjela, tomate, que são mais sensíveis às temperaturas. Com isso, há o reflexo no preço.” 

Entre os itens com melhor valor na atual safra, a cebola (-33%), a batata (-23,9%), o inhame (-21,1%) e a cenoura (-15%) lideram a lista de opções mais em conta para o belo-horizontino no momento mais tenso da pandemia da COVID-19. Nas frutas, os destaques são a laranja-pera (-8,3), o melão (-7,3%) e a melancia (-7,3%).

Volta ao patamar 

Ricardo Martins explica que a partir deste mês, os preços podem ficar melhores: “Quando fazemos comparativos de preços com o mês anterior, vemos variações de 40% ou 50%. Em compensação, de uma hora para outra, as mercadorias podem cair de valor. Se o clima contribuir um pouco e as temperaturas ficarem mais altas, podemos voltar ao patamar de dois meses atrás já em agosto”.

O engenheiro mecânico Carlos Israilev, de 62 anos, admite que tem evitado a compra de várias coisas: “Não tem sido fácil. A pandemia tem prejudicado todos os setores. Temos procurado onde não tem abuso de preço. Temos a lei da oferta e da procura. Precisamos tentar comprar o que está dentro do preço razoável. O que não está, precisamos desistir. Tudo tem mudado. O consumidor é que tem o poder. E nesse momento de crises é que aprendemos”.

No mercado, ele criou uma forma de poder reduzir os gastos: “Tem vezes que compro mangas e banana mais verdes para esperar amadurecer e assim aproveitar os valores mais baixos. O abacate também amadurece mais rápido e, quando chega no ponto, ele pode baixar de preço. Então, é preciso ter estratégia para comprar. Não é como antigamente, que você passava o cartão e comprava. Temos de chegar ao fim do mês com as contas pagas e com reserva para se alimentar”.

A recepcionista Marli Leite Santos, de 50, se mostra apreensiva com o futuro da economia do país e também começou a selecionar mercadorias em seu carrinho: “A gente fica preocupada pelo que vai acontecer no ano que vem. Tudo tem piorado. Ultimamente, fico mais tempo dedicado às compras para consultar preços em regiões diferentes. Uma coisa sempre compensa a outra. Atualmente, passamos a comprar mais maracujá, abacaxi, vagem, cenoura e chuchu, que estão mais em conta. E, sobretudo, evitar o desperdício de tudo”.

 Alguns mercados têm adotado ideias para ajudar o consumidor e aumentar o faturamento no período de entressafra de algumas hortaliças. Um estabelecimento na área central reservou um espaço para mercadorias de primeira, com mais variedade, e outro que dá a opção para o cliente de gastar menos. A diferença nos preços entre uma e outra chega a 40%.

“Algumas mercadorias são difíceis de serem encontradas em virtude da geada que tem matado as plantações. Isso gera muita oscilação nos preços. Por isso, criamos essa opção de reservar lados diferentes para o cliente poder escolher entre comprar um produto com valor mais baixo”, afirma o gerente Frederico Justino de Melo.

VARIAÇÃO 

De acordo com o site Mercado Mineiro, o preço dos produtos está com uma variação que vai de 50% a 300% nos sacolões da capital. Os estabelecimentos da Região Centro-Sul são os que concentram os preços mais caros. Por outro lado, é possível encontrar opções mais baratas em mercados das regiões Noroeste e Nordeste.

“O sacolão sempre tem variação muito grande, em virtude de safras e entressafras. É muito sensível à localização dos estabelecimentos. Os sacolões da Região Sul são normalmente mais caros, devido ao custo do aluguel e outros fatores. Nesse período frio, temos uma tendência de diferenças ainda maiores. Tem gente que compra pior e tem gente que produz hortaliças. Isso influencia no custo”, afirma o coordenador do Mercado Mineiro, Feliciano Abreu.

Ele afirma que a alta no preço do diesel, que já sofreu vários reajustes em 2021, interfere no preço das hortaliças: “Vivemos uma pressão econômica inflacionária muito grande e somos muito reféns do transporte rodoviário. O custo do transporte pode influenciar. Um produtor que usa seu próprio caminhão, planta e revende sua mercadoria acaba compensando o preço do diesel na produção”.